No final de maio, a Agência Espacial da China informou que planeja realizar seu primeiro pouso tripulado na Lua até 2030.
O anúncio gerou imediatamente comparações com a corrida
espacial entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria, já que
Pequim é no momento o grande rival geopolítico dos americanos, e estes também
divulgaram recentemente novidades sobre seu programa espacial lunar.
Em abril, as agências espaciais de Estados Unidos (Nasa) e Canadá (CSA) anunciaram os nomes dos quatro membros da missão Artemis II, que voarão ao redor da Lua em novembro de 2024. A Artemis III, planejada para 2025, deverá ser o primeiro retorno do ser humano à superfície lunar em mais de 50 anos, informou a Nasa.
Os Estados Unidos são até hoje o único país que realizou com
sucesso missões tripuladas à Lua: 12 astronautas americanos pisaram o solo
lunar, entre 1969 e 1972. O feito representou a vitória do programa espacial
americano sobre o soviético.
Hoje, o crescimento do programa espacial chinês, que tem sua
própria estação espacial, a Tiangong, preocupa os Estados Unidos: no ano
passado, o Pentágono publicou um relatório alertando que a China poderá se
tornar “econômica, diplomática e militarmente” a grande potência espacial do
mundo até 2045.
“Embora a base industrial espacial dos Estados Unidos
permaneça em uma trajetória ascendente, os participantes [do estudo] expressaram
preocupação de que a trajetória ascendente da República Popular da China […] seja
ainda mais rápida, com um ritmo significativo de ultrapassagem, o que exige uma
ação urgente”, destacou o documento.
“Falta aos Estados Unidos uma visão de longo prazo clara e
coesa, uma grande estratégia para o espaço que sustente a liderança econômica,
tecnológica, ambiental, social e militar durante os próximos 50 anos e além”, escreveram
os autores do estudo.
Objetivos
Em entrevista à Gazeta do Povo, o pesquisador sobre história da exploração do espaço Junior Miranda, do canal Homem do Espaço, apontou que o perfil mais político do primeiro programa lunar americano fez com que perdesse apelo após sair vitorioso.
“A corrida para a Lua foi eminentemente política. A
iniciativa dos americanos de chegar à Lua antes dos soviéticos foi patriótica,
propagandística, disso não há dúvida. Abriu chance para que a indústria
aeroespacial crescesse também, foi um projeto bilionário, a indústria se
beneficiou disso, gerou muitos empregos”, afirmou Miranda.
“Uma vez pousado o Apollo 11, foi na verdade surpreendente
que o programa tenha continuado até o Apollo 17, porque, uma vez que os
americanos ‘venceram’, o apoio popular caiu. Se o público não se interessa, os
políticos também deixam de se interessar”, explicou o pesquisador.
Miranda apontou que, embora os planos americano e chinês de pousos tripulados na Lua tenham também objetivos de soft power, o foco mudou e agora é principalmente científico e econômico.
O especialista citou que prova disso é que o programa lunar
chinês tem mais de 20 anos – portanto, não é uma pura reação ao Artemis, que
tem parcerias com a iniciativa privada (como as empresas SpaceX, de Elon Musk,
e Blue Origin, de Jeff Bezos).
“A Lua tem recursos minerais, recursos que podem auxiliar
que esta base lunar [objetivo de China e EUA] sirva de trampolim para outros
voos ou de desenvolvimento de tecnologias no espaço para voos interplanetários.
É um lugar interessante para instalar observatórios/radiotelescópios. Além
disso, há a própria pesquisa científica do ambiente lunar, a exploração dos
recursos lunares: oxigênio, silício, ferro, magnésio, alumínio, isso tudo a longo
prazo. Usinas de energia solar poderiam ser montadas na Lua, há vários
projetos”, destacou Miranda.
Vantagem americana
Entretanto, assim como Junior Miranda, a professora sobre
espaço e relações internacionais Svetla Ben-Itzhak, da Air University, apontou
em artigo recente para o site The Diplomat que não enxerga uma “corrida
espacial” entre Estados Unidos e China – principalmente porque a vantagem
americana ainda é muito grande.
Ela destacou que em 2021 o orçamento para a área espacial
dos Estados Unidos foi de aproximadamente US$ 59,8 bilhões e o da China, de US$
16,18 bilhões. Os americanos também têm grande superioridade em número de
satélites em operação (3.433 contra 541) e locais de lançamento (sete
operacionais no seu território e no exterior e pelo menos outros 13 em
desenvolvimento, contra apenas quatro em operação e mais dois planejados pela
China, todos localizados no seu próprio território).
Em 2020, os Estados Unidos lançaram os Acordos Artemis com
Austrália, Canadá, Itália, Japão, Luxemburgo, Emirados Árabes Unidos e Reino
Unido; hoje, já são 25 signatários, incluindo o Brasil.
Antes da guerra da Ucrânia, China e Rússia, principal aliada
geopolítica de Pequim, anunciaram a meta de construir juntas uma base de
pesquisa na Lua. Após o início do conflito no leste europeu, em fevereiro do
ano passado, a parceria com os russos parece ter esfriado.
Num evento sobre o espaço em Paris em setembro, Pequim convidou outros países para colaborar com seu programa lunar e não mencionou a base em parceria com a Rússia. No final de maio, a agência estatal Xinhua também não citou os russos no seu anúncio sobre o plano chinês de pouso tripulado na Lua até 2030.
Além disso, Ben-Itzhak destacou que Índia, Coreia do Sul, Israel, Japão, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Alemanha e União Europeia também estão planejando missões lunares independentes. Ou seja: a China não é a única “concorrência” americana.
“Acredito que não seja uma surpresa que, apesar de sua liderança decisiva, os EUA tenham feito parcerias com outros países para ir à Lua e além. A China está fazendo o mesmo, mas em menor escala [a Chang’e-6, pouso não tripulado na Lua planejado para 2025, terá colaboração da Suécia, França, Itália, Agência Espacial Europeia e Paquistão]. A imagem que emerge não é de uma ‘corrida’, mas de um sistema complexo, com os Estados Unidos como líderes trabalhando em estreita colaboração com extensas redes de parceiros”, argumentou a pesquisadora.
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