Depois de 13 anos, Mark Rutte não será mais o
primeiro-ministro da Holanda. O líder do conservador Partido Popular para a
Liberdade e Democracia anunciou que vai se aposentar da vida pública após sua
coalizão de quatro partidos ruir devido a questões migratórias. Com eleições
marcadas para o dia 22 de novembro, a Holanda pode ter o primeiro governo “antiverde”
da Europa.
A coalizão do quarto governo Rutte já era delicada. Foram
dez meses de negociações para estabelecer um governo que durou um ano e meio,
integrado por seu partido, conhecido pela sigla em holandês VVD, os democratas
liberais do D66 e os democratas cristãos tanto do CDA quanto do CU. Rutte e o
CDA queriam restringir o direito de reunião entre asilados na Holanda e seus
familiares de países em guerra.
O D66 e a CU, por outro lado, eram a favor da manutenção da
permissão de cerca de 45 mil asilados e o direito de reunião de pessoas já no
país com seus familiares que chegam de países em guerra. Lembrando que refúgio,
asilo e imigração são três fenômenos diferentes e, no caso, o governo holandês
possui uma “cota” anual para a concessão de asilo, salvo eventos
extraordinários.
Um ex-aliado de Mark Rutte, Jan Paternotte, presidente do
D66, afirmou que Rutte foi inflexível na negociação e culpou o agora premiê
interino pela queda de governo. Em seu discurso de anúncio da renúncia, Rutte
negou isso e simplesmente disse que era “impossível” um acordo. Ele também
citou a inflação como razão, movida pelo alto preço do gás natural e dos
aluguéis.
Recorde e ambientalismo
Mark Rutte é líder do VVD desde 2006 e premiê desde 2013, o
recordista de tempo no cargo. Ele já havia renunciado antes, em janeiro de
2021, devido a um escândalo por falsas alegações de fraude no aparato estatal
de bem-estar infantil pelas autoridades fiscais holandesas, mas venceu as
eleições seguintes. De qualquer maneira, sua imagem já estava desgastada.
Um dos pontos de maior atrito no atual debate político holandês
é o fato de o país adotar metas e políticas ambientalistas bastante ambiciosas,
por vezes contraditórias com o fato de ser uma potência agrícola. A Holanda,
embora pequena, apenas o 134º país do mundo em área, é um dos maiores
produtores agrícolas do mundo, com forte presença tecnológica no setor.
Esse atrito causou diversos protestos de fazendeiros e
agricultores, especialmente em 2019, motivados por uma proposta legislativa de
redução do rebanho bovino holandês para reduzir a emissão de gases estufas no
país. Pecuaristas holandeses bloquearam estradas e chegaram até a despejar feno
e esterco em algumas localidades. Pesquisas chegaram a colocar a aprovação
popular dos fazendeiros em 60%.
Um curioso e válido argumento dos pecuaristas holandeses é
que trata-se do país original de uma das maiores petrolíferas do mundo, a Royal
Dutch Shell, mas são as vaquinhas leiteiras que são alvo de novas leis. Os
fazendeiros se organizaram, então, no Movimento Agricultor-Cidadão, conhecido
em holandês pela sigla BBB, liderado pela jornalista especialista em temas
agrários Caroline van der Plas.
Partido “antiverde”
O partido possui principalmente bandeiras de direita, socialmente
conservador e com alguns pontos eurocéticos em relação ao bloco europeu. Seu
manifesto claramente se refere criticamente ao processo de federalização da
União Europeia. Principalmente, claro, defende a valorização do setor agrário holandês,
inclusive a rejeição de políticas ambientais mais ambiciosas.
Nesse sentido, o BBB declara como seus principais rivais o
Partido dos Animais, o PvdD, que é um movimento contra a exploração de animais
e pela defesa do vegetarianismo, e o Partido Verde, GL em holandês. É possível
classificar o BBB como o principal partido “antiverde” do mundo hoje. Não que
não existissem partidos críticos às pautas ambientais antes, mas o BBB surge
com esse propósito específico.
Na atual Câmara dos Deputados, formada nas eleições de 2021,
o BBB possui uma cadeira, os verdes possuem oito e o PvdD possui seis. Isso,
entretanto, deve mudar. Na última eleição para o senado, o partido ficou com
20,6% dos votos, conquistando 16 das 75 cadeiras. Em contraste, os dois
partidos ambientalistas ficaram com sete cadeiras cada. Mesmo unidos, menos do
que o BBB.
Atualmente, as pesquisas para novembro colocam o BBB na
liderança da intenção de voto, com 27% dos votos, empatando com o VVD. O
tradicional partido conservador possui maior capilaridade e uma máquina já
estabelecida. Por outro lado, precisará passar por uma eleição interna para
definir sua candidatura, um processo que sempre pode ser desgastante.
Como comparação, na última eleição, o VVD teve 21,8% dos votos, bastante abaixo dos 27% projetados para o BBB. Mesmo que eventualmente não seja o primeiro colocado, já que ainda faltam quatro meses para o pleito, será muito difícil formar um governo viável na Holanda sem levar em consideração o peso dos representantes eleitos dos produtores rurais holandeses.
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