Trago uma péssima notícia para os chinalovers.
A China já atingiu ou está próxima de atingir o pico. Isso significa uma
redução dramática do seu crescimento e um aumento substancial de seus problemas
internos e externos. A ascensão da China como potência global deixou uma marca
indelével no cenário mundial. Embora ela esteja longe do colapso, é importante
ressaltar que a China está a anos-luz do boom que a tirou da indigência
proporcionada pelo comunismo.
Motor do rápido crescimento chinês, a
economia está em franca desaceleração. Depois de atingir uma taxa de
crescimento anual de 14% em 2007, a China só desceu a ladeira. Em 2019, pré-Covid,
registrou 6% de crescimento do PIB. Durante a pandemia, os números ficaram
abaixo de 2%.
A ladeira da economia chinesa é tão
íngreme que no primeiro trimestre de 2022 o crescimento medido foi de 0,4%.
Nesta semana, o Partido Comunista divulgou o que, segundo eles, é uma “retomada
do crescimento”: o “impressionante” 6,3% de crescimento para os primeiros meses
de 2023, mas omitindo que é em relação ao resultado pífio do período anterior.
A economia chinesa soluçou, mas praticamente não saiu do lugar e tampouco dá
sinais de que reverterá a tendência de estabilização em níveis bem modestos de
crescimento anual.
A taxa de desemprego entre jovens de 16 a 24 anos atingiu o nível recorde. É hoje de 21,3%.
O fosso chinês é ainda mais profundo. A produtividade
da indústria chinesa tem caído a uma velocidade constante nos últimos 15 anos.
Isso significa que os chineses estão gastando cada vez mais e produzindo menos
por hora de trabalho. Aquela China barata não existe há tempos. O mercado interno
chinês está mais guloso, e o mundo entendeu que não dá para ficar dependente da
“fábrica chinesa” e está buscando novas fontes de produção. Essa combinação é
um problema. Um enorme problema.
Como se não bastasse, a China está diante
de uma catástrofe demográfica. Sua população está envelhecendo. Até 2050, a
China perderá 200 milhões de adultos em idade ativa – uma população próxima à
do Brasil somente de idosos, que se somarão aos que já estavam fora do mercado.
Em três décadas, projeta-se que 35% da população terá mais de 60 anos. A China
não terá braços suficientes para ser a China “fábrica do mundo” tal como
conhecemos.
As consequências fiscais e econômicas não
podem ser definidas com outra palavra que não seja devastadoras. Os atuais 10% do
PIB que a China despende com saúde e previdência deverão consumir cerca de 30% da
economia. O quadro só será diferente se o Partido Comunista deixar os milhões
de velhinhos sem assistência, para morrerem à míngua.
A crise chinesa se reflete na urgência com
que o regime abandonou a fantasia vestida por Deng Xiaoping no final dos anos
70 e que por 40 anos ludibriou o mundo – a China estava se abrindo
economicamente e politicamente e abraçaria valores como democracia, defesa dos
direitos humanos e a liberdade de mercado.
As reações chinesas às críticas sofridas
durante a pandemia de Covid-19 deixaram claro o jogo chinês. Os líderes do país
mostram que a China não está disposta a mover um centímetro de sua marcha rumo
ao futuro glorioso que lhe é devido pelo mundo. Ou seja, a China avisou que não
vai se adaptar ao mundo. Pelo contrário, caberá ao mundo mudar para que se
adeque ao que é a China. Eles subiram várias notas no nível de agressividade
nos campos político e diplomático e elevaram muitíssimo a temperatura, ao
mostrarem que estão dispostos a ir para guerra caso alguém atravesse o seu
caminho.
As tensões no Mar do Sul da China e em
Taiwan mostram os movimentos que os chineses estão coordenando para criar a
impressão de que são invulneráveis. Que chegaram à maturidade, em todos os
aspectos – inclusive no da defesa.
O que acontece é que o dragão está
nervoso. Encurralado. Os chineses sabem, melhor do que qualquer um, o que o
futuro lhes reserva. E por isso estão tão ativos ou até raivosos, pode-se
dizer. O avanço chinês sobre a África e a América Latina já se explicava pela
necessidade de garantir terras agricultáveis, pastagens e água para produção de
comida.
Mas, com um horizonte de escassez de mão
de obra se aproximando, Pequim – que já corria para garantir o máximo de
controle de recursos naturais e terras – agora acelera o passo para garantir um
certo nível de controle sobre quem, em um futuro não muito distante, possa
trabalhar barato para suas empresas, que expandirão suas atividades na África e
América Latina.
Os movimentos precisam ser rápidos, pois
Pequim tem que aproveitar a ilusão de que eles são os salvadores que injetaram bilhões
de dólares em países quebrados ou totalmente endividados com a China, ou
simplesmente lugares como o Brasil – onde as elites políticas, acadêmicas e
produtivas já foram capturadas pelos bons lucros que a relação com a China
oferece.
A China tem pressa. Sabe que se não for agora, pode não ser nunca mais. Por mais improvável que possa parecer, a China está em vias de declínio. Não será hoje. Nem será amanhã. Mas 2050 não está tão longe assim.
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