19 de fev de 2026 às 16:39
A Fraternidade São Pio X reiterou que fará as ordenações episcopais planejadas sem a autorização do papa, apesar dos alertas da Santa Sé sobre as consequências canônicas dessa medida.
Em carta ao prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Víctor Manuel Fernández, publicada hoje (19), o superior geral da FSSPX, padre Davide Pagliarani, reafirma sua decisão de prosseguir em 1º de julho com a ordenação de bispos sem mandato pontifício e diz que não aceita o adiamento como condição para abrir um diálogo com o dicastério, embora Roma alerte que essa consagração implicaria uma ruptura na comunhão e um possível cisma.
A ordenação de bispos sem mandato pontifício pode levar à excomunhão automática tanto do consagrante quanto do ordenado e, na prática, colocar o grupo em ruptura formal com a Igreja.
Numa reunião realizada há uma semana entre o padre Pagliarini e o prefeito do Dicastério, cardeal Víctor Manuel Fernández, a Santa Sé propôs à fraternidade “um caminho de diálogo especificamente teológico”, com o objetivo de estabelecer os requisitos mínimos para a plena comunhão com a Igreja.
Mas, ele condicionou a abertura desse processo à “suspensão” das consagrações episcopais anunciadas em 2 de fevereiro.
A Santa Sé advertiu expressamente que “a ordenação de bispos sem o mandato do Santo Padre”, agendada para 1º de julho, “implicaria uma ruptura decisiva na comunhão eclesial (cisma) com sérias consequências para a fraternidade como um todo”.
A sociedade fundada em 1º de novembro de 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre rejeitou essa condição e descartou o adiamento das ordenações em troca da abertura de um novo processo de diálogo doutrinário.
“Não posso aceitar a perspectiva e os objetivos em nome dos quais o Dicastério propõe retomar o diálogo na situação atual, nem o adiamento da data de 1º de julho”, disse o padre Pagliarani na carta.
Sem reconhecimento canônico completo
Atualmente, a FSSPX não tem pleno reconhecimento canônico dentro da Igreja, o que significa que seu status jurídico é irregular. A Santa Sé propôs explorar um mecanismo que lhe permita formalizar sua realidade eclesial e reconhecer sua espiritualidade, permanecendo, ao mesmo tempo, dentro da estrutura da Santa Sé.
Os lefebvristas divulgaram uma posição doutrinal na qual dizem que as consagrações planejadas não constituem um ato de cisma.
No documento, disseram que uma consagração episcopal sem mandato pontifício não implica uma ruptura na comunhão se não for acompanhada de uma intenção cismática ou da assunção de jurisdição, tese que entra em conflito direto com a interpretação mantida pela Santa Sé. A ordenação de um bispo não assume necessariamente uma jurisdição. Essa assunção só ocorre com a nomeação de um bispo para uma diocese específica pelo papa.
“A fraternidade se defende de todas as acusações de cisma e considera, com base em toda a teologia tradicional e na doutrina constante da Igreja, que uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé, quando não acompanhada de intenção cismática ou de colação de jurisdição, não constitui ruptura da comunhão da Igreja”, disse o documento.
Carta de Pagliarani
Em sua carta, datada de Menzingen, Suíça, em 18 de fevereiro de 2026, Quarta-feira de Cinzas, o padre Pagliarani respondeu formalmente ao cardeal Fernández, dizendo que o contexto atual, marcado por alertas públicos sobre possíveis sanções, não oferece as condições necessárias de serenidade para o diálogo.
“Não posso aceitar, por honestidade intelectual e fidelidade sacerdotal, diante de Deus e diante das almas, a perspectiva e os objetivos em nome dos quais o Dicastério propõe retomar o diálogo na situação atual; nem, por outro lado, o adiamento da data de 1º de julho”, disse o sacerdote.
O texto, divulgado pela fraternidade, é assinado pelo conselho geral, inclusive os bispos Afonso de Galarreta e Bernardo Fellay, entre outros.
O padre Pagliarani agradeceu ao prefeito do dicastério por recebê-lo e por publicar o conteúdo da reunião, “o que promove total transparência na comunicação”.
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Ele disse que só poderia “saudar a abertura para uma discussão doutrinal”, dizendo que ele próprio a havia proposto em 2019. Mas disse que, naquela época, o dicastério “não demonstrou muito interesse”, considerando impossível um acordo doutrinal entre a Santa Sé e a fraternidade.
O superior-geral disse que uma discussão doutrinal “era — e ainda é — desejável e útil”, mesmo sem garantias de acordo, porque permitiria “que cada um se conhecesse melhor” e compreendesse “o verdadeiro amor pela Verdade, pelas almas e pela Igreja” que motiva cada lado.
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Uma divergência “de consciência”
Segundo a carta, o cerne da rejeição está na impossibilidade de se chegar a um consenso sobre as diretrizes emanadas do Concílio Vaticano II.
“Ambos sabemos de antemão que não podemos concordar em questões doutrinárias, especialmente no que diz respeito às diretrizes fundamentais adotadas desde o Concílio Vaticano II”, escreveu Pagliarani.
Para a fraternidade, essa discordância não é “uma simples diferença de opinião”, mas “uma verdadeira questão de consciência, fruto do que equivale a uma ruptura com a Tradição da Igreja”. Em sua visão, esse “nó” tornou-se “ainda mais inextricável com os desenvolvimentos doutrinais e pastorais que surgiram nos pontificados recentes”.
O sacerdote também pôs em dúvida a viabilidade de um processo que visa determinar conjuntamente “os requisitos mínimos para a plena comunhão”, visto que — como disse ele — os textos conciliares “não podem ser corrigidos” nem a legitimidade da reforma litúrgica pode ser colocada em dúvida.
O padre Pagliarani também falou sobre o precedente do diálogo doutrinal iniciado em 2009 e prolongado até 2017, que concluiu — segundo a sua versão — com uma decisão unilateral do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (atual dicastério para a Doutrina da Fé), cardeal Gerhard Ludwig Müller, que teria estabelecido os “mínimos necessários”, colocando explicitamente “todo o Concílio e o período pós-conciliar”.
“A mão estendida para o diálogo aberto é infelizmente acompanhada por outra mão já preparada para impor sanções”, disse ele, falando sobre advertências sobre uma possível ruptura da comunhão e “sérias consequências”.
Um conflito que remonta a 1988
A crise atual reacendeu um conflito que eclodiu em 1988, quando o arcebispo Lefebvre consagrou quatro bispos, desafiando uma ordem explícita do papa são João Paulo II. Todos teriam sido excomungados pelo ato em si, ainda que não tenha ocorrido um processo de excomunhão nem uma declaração formal de excomunhão. Vinte e um anos depois, Bento XVI revogou a excomunhão dos bispos que ainda estavam vivos na época.
Depois, o papa Francisco autorizou os padres herdeiros de Lefebvre a ouvir confissões validamente e a assistir a casamentos sob certas condições.
Segundo a fraternidade, cerca de 600 mil pessoas no mundo seguem os lefebvristas. Eles têm cinco seminários e estão presentes em cerca de 60 países.
A ordenação episcopal, agendada para 1º de julho, coincide com o aniversário do decreto assinado em 1988 por são João Paulo II que declarou que Lefebvre e os bispos ordenados por ele “incorreram na grave pena de excomunhão”.
Fundada em 1970 em reação às reformas do Concílio Vaticano II, a fraternidade diz que algumas de suas decisões são errôneas e celebra a missa segundo o rito anterior à reforma litúrgica. Lefebvre morreu em 1991 sem ter se reconciliado com Roma.
As consagrações episcopais sem mandato pontifício são classificadas no direito canônico (Cân. 1387) como um ato que pode levar à excomunhão automática.
Diz literalmente: “O Bispo que, sem mandato pontifício, conferir a alguém a consagração episcopal, e também o que dele receber a consagração, incorrem em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica” (Cân. 1382).

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