Neste domingo, o cenário internacional foi impactado pela confirmação do assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e a subsequente formação de um órgão colegiado para a liderança interina do país. Em meio a novos bombardeios e à confirmação da morte de soldados americanos, o professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ, Carlos Eduardo Martins, analisa as implicações geopolíticas e econômicas dessa escalada.
Confira a entrevista feita à repórter da Rádio Nacional, Daniela Longuinho:
Professor, a operação militar dos Estados Unidos e de Israel, por si só, contra o Irã, seria capaz de mudar o regime iraniano ou a tendência agora é de resistência com apoio popular e escalada do conflito?
A aposta do Trump é essa: a de que certos atos causem grande impacto e comoção, possam infundir o medo, o terror, a paralisia e a confusão, levando à rendição de toda uma estrutura política. Foi exatamente o que ele fez na Venezuela. Só que a realidade do Irã é outra e a posição geopolítica do país é também muito mais sensível. No caso do Irã, há uma revolução islâmica que já tem 47 ou 48 anos, que tem estruturas sólidas, aparatos militares e paramilitares profundamente poderosos e uma dimensão muito importante, que é o messianismo — a crença religiosa e a valorização do martírio como um ato de redenção. Então, acho que a aposta que o Trump está fazendo é muito arriscada e tudo indica que possamos ter um conflito muito prolongado e com riscos para a governabilidade dele. O fechamento do Estreito de Ormuz afeta profundamente a base de alianças internacional dos Estados Unidos, pois afeta a Europa e a popularidade das lideranças políticas europeias. E uma elevação do preço do petróleo também pode impactar a inflação norte-americana, levando a uma posição muito difícil para Trump nas eleições de novembro, para as quais ele não parece bem situado, à medida que as pesquisas revelam uma queda significativa da sua popularidade, hoje em torno de 37% a 38%.
Professor, os ataques de ontem aconteceram em meio a uma nova rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano. O que explicou essa reviravolta que saiu do campo diplomático e foi para a ofensiva militar com a morte de Khamenei?
O objetivo do Trump sempre foi produzir uma mudança de regime no Irã. Essa negociação em torno do enriquecimento do urânio é um pretexto para abrir espaço para uma ação mais contundente posteriormente, para distrair a própria liderança iraniana que poderia acreditar em uma saída pacífica. Parece ter sido essa a intenção: fazer uma manobra diversionista; tanto que o assassinato de Ali Khamenei ocorre durante uma reunião de trabalho com seus principais assessores. Foi um ato que pegou a liderança iraniana despreparada. Trump quer o controle sobre o Estreito de Ormuz para colocar a China e a Índia em uma situação de profunda vulnerabilidade energética e suscetível às pressões norte-americanas. Da mesma forma, quer que o Irã deixe de apoiar militarmente a Rússia na frente de batalha ucraniana. Trata-se do objetivo de controlar um ponto geopolítico estratégico para atingir duas potências que ele considera revisionistas da ordem internacional: Rússia e China.
É possível estimar o tempo dessa guerra? Os Estados Unidos disseram que a operação está adiantada e Trump sinalizou que concordou em conversar com líderes do Irã. É possível uma negociação neste momento?
Essa fala do Trump dizendo que quer conversar sinaliza uma certa vulnerabilidade. A imprensa norte-americana, como o Washington Post, está dando ênfase crítica ao tema, pontuando que uma guerra prolongada pode afetar a economia dos EUA. Há uma crítica avançando nos EUA em relação a essa ação. No Congresso, os democratas pretendem limitar o poder de Trump para agir sem autorização, apesar dele ter o poder de veto, isso gera um desgaste para sua liderança. Além disso, a primeira-ministra da Alemanha, Merkel, já declarou que, embora apoie os pleitos norte-americanos do controle do enriquecimento do urânio, tem reservas quanto à ação militar. Isso indica uma vulnerabilidade do Trump, e que os cálculos de uma vitória total em curto prazo estão indo agua abaixo.
Sobre o poderio militar do Irã, conhecido pelos drones de ataque: houve uma diminuição dessa capacidade após a “guerra dos 12 dias” do ano passado? O que se pode esperar de retaliação do Irã nos próximos dias?
Não se sabe exatamente qual é o poder militar do Irã hoje, pois isso é segredo de Estado. De toda forma, o poder do Irã vai muito além da ação estatal. O Estado iraniano mobiliza uma solidariedade xiita que esta’espalhada por vários países. Esse poder de convocação está além da capacidade militar do Estao e pode se manifestar em atentados de longo alcance, produzindo uma série de disturbios para os poderes ocidentais.
E quanto aos efeitos para a economia mundial com o possível fechamento do Estreito de Ormuz?
Essa é uma consequência imediata. Outro consequência é a perda de importância do dólar como moeda de reserva internacional. Os bancos centrais, liderados pela China, estão substituindo o dólar pelo ouro. Uma das formas da China retaliar é valorizando o ouro em relação ao dólar. Possivelmente, estamos caminhando para a quarta grande crise das finanças dos Estados Unidos desde 1929. O indicador para medir isso é o coeficiente Dow Jones-ouro. Uma queda dramática nesse coeficiente indica uma crise profunda que pode colocar em questão o dólar como padrão monetário internacional. Sem uma moeda forte, a máquina de guerra dos Estados Unidos terá dificuldades de funcionar.
More Stories
Apagão da internet no Irã já ultrapassa 120 horas
Turquia afirma que míssil do Irã foi destruído pelas defesas da Otan
Governo condena ataques do Hezbollah e de Israel no Oriente Médio