6 de mar de 2026 às 16:12
A guerra com o Irã abriu um capítulo de violência para o Líbano, deixando o país mais uma vez no caos, nas dificuldades e na incerteza que acompanham todo conflito.
Para muitos cristãos, a frustração é ainda mais profunda. Por décadas, eles conviveram com a realidade do domínio armado do grupo radical islâmico Hezbollah, opondo-se politicamente e contestando, com impacto limitado, a doutrina da milícia islâmica patrocinada pelo Irã.
Hoje, as consequências das aventuras militares do Hezbollah e seu envolvimento em guerras regionais estão se manifestando novamente, e os cristãos do Líbano também devem arcar com o custo.
Para aldeias cristãs no sul, a injustiça é ainda mais gritante. Elas se opuseram a esse caminho, mas a geografia as colocou diretamente na linha de fogo. À medida que ordens de evacuação se espalham pelo sul do Líbano, moradores são instruídos a deixar suas casas. Mas, apesar do perigo e da injustiça de pagar o preço por uma guerra que não desejavam, muitos escolheram seu próprio modo de “resistência”: ficar onde estão.
Alma al-Shaab toca os sinos da resiliência
Na cidade de Alma al-Shaab, moradores se recusaram a deixar suas casas. Eles se reuniram na praça da igreja de Nossa Senhora e tocaram os sinos. Vídeos que circularam nas redes sociais mostram moradores enviando uma mensagem clara: eles pretendem permanecer em sua aldeia.
Charbel Sayyah, formado em direito e natural dessa cidade cristã do sul do Líbano, disse que Alma al-Shaab está numa posição extremamente sensível na fronteira. “Tem uma posição estratégica tanto para os israelenses quanto para o Hezbollah”, disse ele, dizendo que o Hezbollah tentou várias vezes adquirir terras na vila por meio de associações afiliadas, esforços aos quais moradores se opuseram.
Numa publicação na rede social X, Sayyah escreveu : “Sou de Alma al-Shaab, do amado sul que nada tem a ver com os iranianos ou suas milícias. Insto ao presidente da república e ao primeiro-ministro para que declarem minha cidade, Alma al-Shaab, uma zona livre de qualquer atividade militar ou de segurança do Hezbollah. Insto também ao exército libanês para que intervenha e proteja a área de qualquer ataque. E se não puder fazer isso diretamente, que forneça ao povo da cidade o que eles precisam para se manterem firmes e se defenderem”.
Sayyah falou à ACI MENA, agência de notícias em árabe da EWTN News, sobre a necessidade de esforços diplomáticos para deixar claro que essas aldeias não têm qualquer ligação com atividades militares.
“Se vocês não querem nos fornecer proteção direta, pelo menos nos deem o que nos permita resistir, apoio, suprimentos, munição, qualquer tipo de assistência”, disse ele. “Como vamos enfrentar isso?”
Sayyah disse que pegar em armas é a última coisa que os moradores desejam.
“Não queremos armas, e a maioria das pessoas aqui nem sabe como usá-las”, disse ele. “Mas não podemos ficar assim… Não aceitaremos que alguém [o Hezbollah] lance foguetes de nossas terras, ou que um soldado israelense nos provoque, como quando a Estrela de Davi foi desenhada na Igreja de Nossa Senhora. Não podemos reviver a mesma história sempre. Esta é a nossa cidade e queremos permanecer nela”.
Sayyah falou sobre o conflito anterior, em 2024, quando Alma al-Shaab sofreu danos significativos. “A igreja foi destruída pela metade”, disse ele. “Nossa casa também foi danificada. Nunca quisemos a guerra. Mesmo assim, fomos obrigados a sair por causa do fogo cruzado. Depois do cessar-fogo, alguns moradores começaram a voltar. Mas desta vez, apesar da guerra, não pretendemos sair”.
Em Rmeish, sinos da igreja alertam para o perigo.
Christian Hajj, natural da cidade fronteiriça de Rmeish, disse à ACI MENA que sua família não tem intenção de partir. “Eles não deixaram a aldeia em nenhuma das guerras anteriores”, disse ele sobre seus parentes. “Construíram sua casa do zero. A casa da minha avó data da década de 1960”.
Ele disse que a principal preocupação de sua família e de muitos moradores é a possibilidade de uma incursão terrestre israelense, já que Rmeish fica exatamente na fronteira. Mas ele disse que a cidade em si não sofreu danos nas hostilidades do ano passado.
Hajj também enfatizou que Rmeish nunca permitiu que membros do Hezbollah se posicionassem na cidade. Falando sobre as preocupações de que membros do partido pudessem se infiltrar na vila desta vez, ele disse que a geografia dificulta tais movimentos. “Estamos literalmente nas fronteiras”, disse ele. “Estamos cercados por Israel de um lado e por outras vilas do outro, o que significa que as entradas são conhecidas”.
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Homens da cidade se ofereceram para organizar turnos de vigilância, disse Hajj, em coordenação com a igreja local, cujos sinos são tocados caso qualquer movimento suspeito seja detectado. Ele disse que o que funciona como a polícia local da cidade são soldados do exército libanês da vila que estão de folga e ajudam a monitorar a área.
Hajj disse que a aldeia é em grande parte autossuficiente, embora os moradores ainda dependam do abastecimento de alimentos provenientes de cidades próximas.
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Ein Ebel mantém-se firme
Em Ein Ebel, outra aldeia cristã no sul do Líbano, a mesma escolha foi feita: ficar.
Uma moradora da cidade, que pediu para não ser identificada por motivos de segurança, disse à ACI MENA que a presença dos residentes é um modo de proteção. “Queremos proteger a cidade com a nossa presença e garantir que o Hezbollah não entre nela nem a use”, disse ela.
Ela disse que jovens da cidade estão posicionados nas entradas, embora ela continue preocupada porque a fronteira não se limita aos pontos de entrada oficiais.
Apesar dos relatos que circulam sobre a retirada do exército libanês de Ein Ebel, ela disse que tropas permanecem na cidade. Ela disse também enfatizou que moradores pretendem permanecer em suas casas mesmo em caso de uma incursão terrestre israelense.
Ela disse que um homem suspeito de ser membro do Hezbollah entrou na aldeia no dia anterior pedindo abrigo e parecia ter acabado de sair de um confronto: suas roupas estavam sujas e ele apresentava sinais visíveis de combate. Os moradores entraram em contato imediatamente com a polícia municipal, que o escoltou para fora da cidade.
“Até agora, ele é o único que tentou entrar, ou pelo menos o único de quem temos conhecimento”, disse ela.
Uma mensagem para a Santa Sé e para o mundo: ‘Não vamos embora’
O núncio apostólico no Líbano, arcebispo Paolo Borgia, foi recentemente informado por uma delegação representando moradores de cidades cristãs do sul do país, Rmeish, Ein Ebel, Debel e Alma al-Shaab, que os habitantes tomaram uma decisão final: não vão abandonar suas terras nem suas casas, independentemente das circunstâncias.
Os membros da delegação reafirmaram seu compromisso com o Estado libanês, o exército libanês, as Forças de Segurança Interna e a Força Interina das Nações Unidas no Líbano, (UNIFIL, na sigla em inglês), rejeitando o deslocamento forçado. Eles disseram que suas cidades não abrigam o Hezbollah nem qualquer outra presença armada que possa servir de pretexto para ataques contra eles.
A delegação também pediu a canais diplomáticos da Santa Sé que levantassem a questão em Washington e em capitais europeias, buscando garantias de que os moradores dessas cidades fronteiriças não seriam alvo de operações militares ou pressionados a deixar suas casas, algo que, segundo eles, está fora de questão.
Falando em nome dos moradores, o padre Najib Al-Ameel, pároco de Rmeish, disse: “Permanecemos firmes em nossa cidade. Essa é a posição da maioria das pessoas em Rmeish, Ein Ebel e Debel. Não ficaremos desabrigados pelas estradas; nossas casas são mais seguras”.
Presas entre o medo da exploração de suas aldeias pelo Hezbollah e a ameaça de uma invasão israelense, essas comunidades enfrentam perigos que não escolheram nem controlam. O que as sustenta é a fé, o amor pela sua terra e uma obstinada determinação de permanecer.
Esta notícia foi publicada originalmente pela ACI MENA, agência de notícias em árabe da EWTN, e foi traduzida e adaptada pela EWTN News English.

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