11 de mar de 2026 às 16:12
Um dos grupos de estudo do Sínodo da Sinodalidade levantou a possibilidade de “reformular” certas competências e funções de padres, diáconos e bispos para dar mais responsabilidade às mulheres na Igreja. O grupo também disse que a questão do diaconato feminino “ainda não está madura”.
“É necessário refletir, em particular, sobre a reformulação dos âmbitos de competência do ministério ordenado”, diz o relatório final do grupo que estudou a participação das mulheres na vida e no governo da Igreja, publicado pela Santa Sé hoje (11) em italiano e inglês.
Este é um dos dez grupos criados pelo papa Francisco em 2024, depois da primeira sessão do Sínodo da Sinodalidade. O grupo foi dissolvido depois da apresentação de seu relatório.
O trabalho e o relatório deste grupo foram coordenados pelo Dicastério para a Doutrina da Fé da Santa Sé. No documento, a equipe se mostrou aberta à “possibilidade de novos ministérios – incluindo os de liderança de comunidades– para leigos e leigas, e para religiosos e religiosas”.
O relatório de 86 páginas, cuja publicação foi autorizada pelo papa Leão XIV, reconhece um “mal-estar” diante de formas de “machismo” e “clericalismo” dentro da Igreja e propõe uma redefinição do poder governante que ofereça novas posições de liderança para as mulheres.
“Redefinir esses âmbitos de competência poderia abrir caminho para o reconhecimento de novos espaços de responsabilidade para as mulheres na Igreja”, diz o relatório.
O relatório diz que a questão do diaconato feminino “ainda não está madura” e cita o trabalho feito por comissões anteriores. A segunda comissão emitiu um parecer negativo, sem emitir um juízo definitivo.
As propostas agora divulgadas também não são definitivas. Elas foram submetidas ao papa para o seu estudo.
Mais do que uma concessão
O texto alega que é necessário “superar a concepção da participação ativa das mulheres na vida e no governo da Igreja como uma ‘concessão’ da autoridade hierárquica”.
Segundo o documento, o envolvimento das mulheres não deve ser entendido como uma mera substituição funcional, mas como uma realidade ligada à dignidade batismal, visto que as mulheres são “titulares de um direito a esse respeito, na medida em que são batizadas e portadoras de carismas”.
Segundo o documento, “não há razão ou impedimento que impeça as mulheres de exercerem papéis de liderança na Igreja”. “O simples fato de ser mulher não impede, por si só, que as mulheres assumam papéis de liderança na Igreja”.
De uma perspectiva eclesiológica, os participantes consideram necessário “superar a separação artificial entre gêneros e papéis, considerando a dignidade comum de todas as criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus”.
O grupo destaca que deve ser dada prioridade “à ordem do ser sobre a do fazer”, recordando que a participação na missão da Igreja se baseia, sobretudo, no batismo e nos dons do Espírito Santo presentes no povo de Deus.
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O relatório diz que o discernimento desses carismas cabe ao bispo, que pode reconhecê-los por meio de um mandato, uma delegação ou a instituição de um ministério específico. Contudo, adverte que esse processo “não é uma decisão solitária”, mas deve também envolver a comunidade eclesial.
O papel dos leigos no exercício do ministério do bispo
Do ponto de vista teológico e canônico, o documento esclarece que os fiéis leigos não participam da ordem sagrada, embora possam colaborar no exercício do ministério do bispo.
Os autores dizem que tanto o papa Francisco quanto Leão XIV colocaram essa orientação em prática ao nomear mulheres para cargos de autoridade na Cúria Romana, o que constitui “um modelo para reflexão”.
“As recentes nomeações de mulheres para cargos de responsabilidade em alguns dicastérios constituem um sinal profético de significado tanto simbólico quanto prático. Representam um primeiro passo para a abertura de novos espaços de participação, reconhecendo que a capacidade de governar e discernir não é prerrogativa exclusiva do gênero masculino”, diz o relatório.
Advertência contra o clericalismo
“As mulheres, mesmo em posições de responsabilidade, por vezes têm dificuldade em participar e em serem ouvidas em pé de igualdade com os seus colegas homens, especialmente nas interações com ministros ordenados”, diz o relatório.
O relatório lembra que a autoridade própria dos clérigos deriva principalmente da sua relação com a eucaristia e da sua missão de custodiar a unidade da comunidade, embora isto “não exclua que um poder de orientação das comunidades possa ser conferido, pelo menos em alguns casos, também aos fiéis leigos”.
O relatório acrescenta que a autoridade primacial do papa pode também ser delegada a pessoas batizadas que não receberam as Ordens Sacras, conforme estabelecido pela constituição apostólica Praedicate Evangelium. Por conseguinte, considera que “não parecem existir obstáculos à extensão desta abordagem também a nível local, nas dioceses”.
A participação das mulheres “é um autêntico sinal dos tempos”
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O relatório também fala de sinais de mudança. Muitas mulheres percebem um reconhecimento crescente por parte dos líderes masculinos, que compreenderam que a sua participação “não é uma concessão ou uma adaptação a tendências culturais passageiras, mas sim um verdadeiro sinal dos tempos”.
Esta nova consciência poderá tornar-se, acrescenta o documento, “um pré-requisito para uma transformação estrutural duradoura”.
O secretário-geral do sínodo, cardeal Mario Grech, disse no resumo do relatório que “serão necessárias coragem, acompanhamento e paciência para introduzir mudanças graduais” a fim de preservar a comunhão eclesial e construir comunidades em que os dons e carismas de homens e mulheres sejam plenamente valorizados.

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