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Quando a tragédia vira palanque antes de virar investigação

Há uma coisa que a política eleitoral parece ter desaprendido: existem momentos em que a primeira obrigação é esperar. Uma parte da estrutura das obras da Ponte do Futuro, em Cabedelo, se desprendeu, nesta segunda-feira (21) a menos de duas semanas das eleições. O acidente mobilizou Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Samu. Um trabalhador teria sido atingido e, nas primeiras informações divulgadas, ele ainda estaria desaparecido. As equipes de emergência ainda estavam no local, fazendo buscas e tentando entender exatamente o que havia acontecido.

Ainda não havia, nem há, portanto, laudo, conclusão técnica ou causa definida. Mas, na política, aparentemente, esperar virou um luxo. Antes mesmo de se saber se houve falha de projeto, erro de execução, problema estrutural, condição excepcional, falha humana, circunstância imprevisível ou qualquer outra causa — e antes mesmo de se saber a extensão real do acidente — já apareceu quem enxergasse ali uma oportunidade eleitoral.

O senador e pré-candidato ao Governo da Paraíba Efraim Filho (PL) foi às redes sociais e publicou: “GOVERNO SEM FUTURO que engana, destrói e coloca em risco a vida dos paraibanos.”

É compreensível que um candidato de oposição faça críticas ao governo. Faz parte do jogo democrático. O que merece reflexão é outra coisa: quando uma tragédia ainda está sendo investigada, em que momento a crítica política deixa de ser cobrança legítima e passa a ser exploração eleitoral de uma ocorrência ainda sem explicação?

A obra é do Governo do Estado? Sim. Está sendo executada por empresas contratadas? Sim. O governador está em processo de reeleição? Sim. Mas nenhuma dessas três informações responde à pergunta fundamental: por que a estrutura desabou?

E é justamente essa resposta que ainda não existe.

Uma obra pública não se torna automaticamente prova de responsabilidade pessoal do governante porque alguma coisa deu errado durante sua execução. Da mesma maneira, uma empresa contratada não pode ter sua imagem transformada em sinônimo de incompetência ou negligência antes de qualquer conclusão técnica.

É preciso investigar. É preciso identificar responsabilidades. É preciso, se houver erro, apontá-lo. E, se houver negligência, que os responsáveis respondam por ela. Mas existe uma diferença enorme entre responsabilização e condenação antecipada. O problema é que, na política, a segunda costuma chegar muito antes da primeira.

É curioso, inclusive, porque os próprios políticos conhecem muito bem esse mecanismo. Quando são acusados publicamente, reclamam — com razão — que a acusação recebe manchetes, enquanto a absolvição aparece em letras miúdas. Dizem que o dano à imagem acontece no primeiro dia e que a reparação, quando acontece, chega tarde demais.

Pois bem: o princípio deveria valer também quando o acusado é o adversário. Não se pode exigir prudência quando o alvo é um aliado e dispensá-la quando o alvo é um adversário. Não se pode reclamar do julgamento antecipado quando se está no banco dos acusados e, no instante seguinte, praticá-lo contra quem está do outro lado. Uma tragédia não deveria precisar esperar o calendário eleitoral para ser tratada com seriedade.

É possível — e necessário — cobrar explicações do Governo do Estado. É possível perguntar sobre fiscalização, projeto, execução, contrato, empresa responsável, acompanhamento técnico e protocolos de segurança. Tudo isso é legítimo. O que não parece razoável é substituir todas essas perguntas por uma conclusão pronta.

Porque, se amanhã um laudo apontar uma causa completamente diferente daquela sugerida nas primeiras horas, quem devolverá à empresa eventualmente atacada a reputação perdida? Quem desfará a acusação lançada nas redes sociais? Quem fará a mesma mobilização para informar que a hipótese inicial não se confirmou?

É justamente aí que mora o perigo. A política tem pressa porque a eleição tem data. A investigação, não. A engenharia, também não. A perícia, muito menos. E a verdade não costuma obedecer ao calendário eleitoral.

Um acidente pode ser consequência de uma sucessão de fatores. Pode decorrer de erro humano, de falha técnica, de condições extraordinárias ou de uma combinação de circunstâncias. Até um fenômeno natural, quando ocorre, não pode ser transformado automaticamente em culpa de alguém apenas porque aconteceu dentro de uma obra pública.

Seria como atribuir ao governante a autoria de um terremoto simplesmente porque o terremoto atingiu uma obra pública.

É claro que há uma diferença: obras são planejadas, executadas e fiscalizadas por pessoas e instituições. Por isso mesmo, quando ocorre um acidente, a investigação precisa ser ainda mais rigorosa.

Mas rigor não é sinônimo de precipitação.

Aliás, quanto maior a gravidade do episódio, maior deveria ser a responsabilidade de quem fala sobre ele.

Há famílias preocupadas. Há trabalhadores envolvidos. Há equipes de resgate procurando respostas. Há uma empresa cuja atuação ainda precisa ser tecnicamente avaliada. Há um governo que terá de prestar esclarecimentos.

Nada disso deveria ser reduzido à velha fórmula eleitoral do “se fosse comigo, seria diferente”.

Porque esse raciocínio parte de uma certeza que ninguém possui neste momento: a de que já se sabe quem errou. Não se sabe. O que se sabe é que uma estrutura desabou. O que se sabe é que trabalhador foi atingido. O que se sabe é que as autoridades estão investigando.

É possível fazer oposição sem transformar toda desgraça em prova de incompetência do adversário. É possível cobrar o governo sem condená-lo antes da perícia. É possível defender transparência sem fabricar culpados.

E, sobretudo, é possível ter humanidade suficiente para compreender que, diante de um acidente com trabalhadores, talvez o primeiro impulso devesse ser solidariedade, socorro e apuração — e não a busca imediata pelo dividendo político.

A eleição vai chegar. As críticas continuarão sendo feitas. Os governos serão julgados pelos seus resultados. Mas a tragédia de hoje não precisa virar o palanque de ninguém antes de sequer sabermos o que aconteceu.

Em tempo

Já no início da tarde o Governo enviou uma nota para explicar o ocorrido:

Governo informa sobre o ocorrido na Ponte do Futuro

O secretário de Infraestrutura do Governo do Estado, Jovânio Silva, informou agora que no final da manhã desta segunda-feira, na obra da Ponte do Futuro, em Cabedelo, uma fôrma metálica que a empresa utiliza na montagem da obra se desprendeu e um operário que estava preso ao cinto de segurança caiu e encontra-se desaparecido.

O Corpo de Bombeiros está no local fazendo todos os procedimentos de busca e resgate.

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Com PB Agora