Uma explosão ocorrida na última segunda-feira (5), no gasoduto de Togliatti-Odessa, que era utilizado pela Rússia para a transferência e exportação de amônia, desencadeou um jogo de culpa entre o país liderado por Vladimir Putin e a Ucrânia. O Togliatti-Odessa é um dos mais longos gasodutos do mundo com cerca de 2.500 km de extensão. Ele vai da cidade de Togliatti, no oeste da Rússia, até a cidade de Odessa, que fica localizada as margens do Mar Negro, no sul da Ucrânia.
A explosão no gasoduto ocorreu perto da vila de Masyutivka, na região de Kharkiv, nordeste da Ucrânia, em frente a linha de combate entre as tropas russas e ucranianas. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que um “grupo de sabotagem ucraniano” havia explodido uma seção do gasoduto, causando vítimas civis. No entanto, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, negou as alegações e afirmou que a explosão provavelmente teria sido causada “por bombardeios russos”.
A questão é que o incidente lançou uma sombra sobre a prorrogação da iniciativa Black Sea Grain, o acordo firmado em julho de 2022 entre Ucrânia e Rússia, que tinha como principal objetivo enfrentar a crise global de alimentos, que estava sendo impulsionada por causa da guerra.
O acordo, intermediado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Turquia, permite a passagem segura de navios carregados de grãos e fertilizantes do porto de Pivdennyi, na Ucrânia, próximo a Odessa, para outros países. O acordo também estipula que a Rússia poderia retomar a operação do gasoduto para a transferência de amônia como parte de suas obrigações.
No entanto, o acordo atual está programado para expirar no próximo dia 17 de julho deste ano e Moscou afirmou que não renovará ele a menos que o gasoduto, que sofreu danos por causa da explosão, esteja em “pleno funcionamento”. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a explosão “só pode ter um impacto negativo” nas negociações para renovar o acordo. Ele acrescentou que Moscou não sabe quanto tempo levará para reparar os danos, pois “não tem acesso à área afetada”.
Impacto na cadeia produtiva global
As implicações da explosão no gasoduto são abrangentes, pois podem interromper o fornecimento e a demanda de grãos e fertilizantes no mercado global já no próximo semestre.
A região do Mar Negro concentra os principais produtores e exportadores mundiais de grãos. A Ucrânia sozinha responde por cerca de 16% das exportações globais de trigo e 20% das exportações globais de milho. A região também depende de importações de amônia da Rússia para produzir fertilizantes, que são essenciais para aumentar os rendimentos das colheitas.
A iniciativa Black Sea Grain foi considerada um avanço na redução das tensões entre Rússia e Ucrânia, e na garantia da segurança alimentar para milhões de pessoas ao redor do mundo. O acordo permitiu a exportação de cerca de 30 milhões de toneladas de grãos e 10 milhões de toneladas de fertilizantes da Ucrânia desde sua criação, em pleno conflito envolvendo o país e a Rússia. Ele também ajudou a estabilizar os preços globais de alimentos, que atingiram níveis recordes durante a pandemia de Covid-19.
No entanto, o ataque ao gasoduto de amônia ocorrido na última segunda-feira pode colocar em risco esse equilíbrio frágil. Sem a renovação, o fornecimento de amônia da Rússia para a Ucrânia seria paralisado e isso poderia fazer com que a produção de fertilizantes por parte dos ucranianos caísse em cerca de 40%, segundo especialistas do setor.
Isso também poderia reduzir a produção e o potencial de exportação de grãos da Ucrânia já na segunda metade deste ano. O incidente também poderia aumentar os preços dos fertilizantes globalmente, à medida que a demanda supera a oferta.
Além disso, se a Rússia manter a promessa e não prorrogar o acordo de grãos em julho, o acesso da Ucrânia ao seu principal porto de exportação, Pivdennyi, poderia ser restringido pelo país de Putin, que neste momento controla o Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov. A Rússia afirmou que sem o acordo, poderá limitar o número de navios permitidos a viajar para Pivdennyi até que o gasoduto seja reparado. Isso poderia dificultar a capacidade da Ucrânia de enviar seus grãos para outros mercados, especialmente na Ásia e na África.
Aumento da insegurança alimentar
A interrupção do fluxo de grãos e fertilizantes da região do Mar Negro pode ter consequências graves para a segurança alimentar e a estabilidade global. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, sigla em inglês), mais de 800 milhões de pessoas enfrentam fome aguda em todo o mundo, e outras 2,4 bilhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave.
A FAO alertou que qualquer choque adicional nos sistemas alimentares, como o que pode ser promovido pelo interrompimento do acordo entre Rússia e Ucrânia, pode desencadear uma nova crise humanitária global de alimentos.
Impactos nos preços
O aumento desses produtos acarretaria na subida de preços de alimentos básicos, o que poderia afetar a acessibilidade e a disponibilidade de comida para milhões de pessoas ao redor do mundo, especialmente para aquelas que vivem em países emergentes ou de baixa renda como Índia, Líbano, Moldávia, Egito, Paquistão e Indonésia, que dependem diretamente das importações ucranianas.
Além disso, essa ação também poderia escalar o risco de uma agitação social e instabilidade política em algumas regiões do oriente médio e do continente africano.
A falta do acordo também poderia atingir a economia da própria Ucrânia. De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês), a Ucrânia exportou 55,7 milhões de toneladas de grãos entre 2021 e 2022, no valor de cerca de US$ 11,6 bilhões. Uma interrupção nas exportações de grãos do país poderia reduzir seus ganhos em moeda estrangeira, o que afetaria seu equilíbrio fiscal e aumentaria ainda mais a sua inflação.
Em uma live do canal E-risk, o analista de riscos e major da reserva do Exército, Nelson Ricardo Fernandes da Silva, observou que a Rússia estava envolvida neste acordo de exportação de alimentos porque tinha interesse em garantir a eleição de Recep Tayyip Erdogan na Turquia. Na visão de Ricardo, a Turquia desempenha um papel crucial na intermediação dos produtos russos, especialmente para o mercado ocidental, devido ao seu controle sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos. A Rússia valoriza suas boas relações com a Turquia devido a esse posicionamento estratégico.
Ricardo afirmou que alegação inicial do acordo era que faltaria alimento para o mundo, impactando principalmente os países árabes e africanos, mas na prática, “a maioria dos alimentos foi destinada à União Europeia”. Atualmente, segundo o analista, as relações entre Rússia e União Europeia estão bastante desgastadas e que se a Rússia não considerar esse acordo como um fator crucial para sua economia, ela poderá decidir não renovar ele em julho.
O analista disse que a reputação internacional da Rússia já está abalada por inúmeras sanções, e ele não acredita que o país esteja muito preocupado com a opinião pública internacional. Ricardo ressaltou que, embora ninguém apoie a invasão da Ucrânia, atualmente não existe nenhuma ação definitiva por parte da comunidade internacional a respeito do tema e isso mostra como o mundo está dividido.
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