3 de mar de 2026 às 15:57
O relatório final do grupo de estudos sobre Missão no Ambiente Digital propõe a possível criação, na Santa Sé, de um órgão específico destinado a acompanhar e supervisionar desafios teológicos, pastorais e canônicos que surgem na internet.
Esse é um dos dez grupos criados pelo papa Francisco em 2024, no fim da primeira sessão do Sínodo da Sinodalidade, com a tarefa de aprofundar questões relevantes para a missão da Igreja a partir de uma perspectiva sinodal.
Entre as recomendações está a criação de uma Comissão Pontifícia para a Cultura Digital e as Novas Tecnologias — ou órgão ou departamento equivalente — que teria a função de monitorar as questões emergentes na área digital; preparar documentos, diretrizes e manuais; elaborar estratégias de formação diferenciadas para bispos, padres, religiosos e leigos; e apoiar as conferências episcopais na integração da missão digital em seus planos pastorais.
O documento diz que essas são propostas que devem ser estudadas e consideradas, e não decisões já tomadas.
Riscos éticos e polarização
O grupo de estudo também alerta para os riscos éticos inerentes às plataformas digitais. O documento diz que “muitos” participantes da consulta internacional apontaram “o uso indevido de plataformas digitais para polarização, manipulação ou disseminação de informações falsas” como um desafio significativo para a vida eclesial e a evangelização.
O documento diz que as conferências episcopais e as equipes digitais diocesanas devem “reconhecer os riscos éticos e a possibilidade de polarização”, uma dinâmica que “muitas vezes parece estar inscrita nas próprias plataformas de mídia social”.
Riscos de abuso e desvio doutrinário
O relatório diz que todos os envolvidos na evangelização digital “devem estar cientes de qualquer abuso de autoridade, desvio doutrinário, sensacionalismo e manipulação”.
Segundo o texto, o ambiente digital pode fomentar dinâmicas que exacerbam posições ideológicas, simplificam debates complexos e incentivam confrontos que enfraquecem a comunhão eclesial.
Destaca-se que as plataformas digitais dominantes “não são neutras”, pois operam usando algoritmos que podem “dificultar a disseminação de mensagens positivas” e amplificar conteúdo controverso ou divisivo.
Outro desafio identificado é o uso indevido das redes sociais para polarização, manipulação ou disseminação de informações falsas, fenômenos que muitos participantes da consulta disseram ser particularmente preocupantes.
Uma reflexão sobre a missão na cultura digital.
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O relatório fala sobre uma questão central que surgiu na 16ª assembleia: como viver a missão da Igreja numa cultura cada vez mais moldada pela tecnologia digital. Com base em amplas consultas envolvendo agentes pastorais, especialistas e entidades eclesiais de todos os continentes, o grupo compilou experiências, analisou desafios e formulou recomendações concretas.
Entre os temas centrais, há a necessidade de integrar a missão digital às estruturas ordinárias da Igreja, evitando que seja considerada uma esfera marginal ou paralela. Ressalta também a importância de aprofundar a noção de jurisdição territorial à luz das comunidades online, e de fortalecer a formação de pastores e agentes pastorais na cultura digital.
Possíveis adaptações canônicas
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Um dos pontos que suscita reflexão é a possível adaptação do conceito de jurisdição eclesiástica, tradicionalmente ligado a um território geográfico.
O texto incentiva o “estudo, a identificação e a aplicação de possíveis adaptações canônicas” para responder às realidades digitais supraterritoriais.
Ele diz que ainda há muitas consultas e discernimentos a serem feitos em questões jurisdicionais e sugere que o compromisso da Igreja com a cultura digital pode exigir a consideração de algum modo de organização não-territorial, articulada por meio de relações pastorais baseadas no acompanhamento.
Os órgãos competentes da Santa Sé são convidados a examinar possíveis ajustes regulamentares que permitam a devida adaptação a essas novas realidades.
Formação e acompanhamento espiritual
O relatório propõe oferecer estratégias de formação diferenciadas conforme as funções eclesiais, com uma preparação abrangente alicerçada na teologia, no ministério pastoral, na comunicação e na cultura digital, com modelos de “formação de formadores”.
Sugere o fortalecimento dos programas de acompanhamento espiritual e formação para os chamados “missionários digitais”, baseados no discernimento e na missão, e a promoção de mecanismos estáveis de direção espiritual e acompanhamento pastoral.
Diz que a segurança, o bem-estar digital e a literacia mediática deveriam ser integrados estruturalmente na educação católica e na formação teológica.
O documento diz que as propostas são orientações abertas para estudo e discernimento adicionais, à medida que a Igreja continua a questionar-se sobre as mudanças que a cultura digital pode exigir das abordagens pastorais historicamente moldadas por fronteiras territoriais.

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