13 de mar de 2026 às 12:28
Durante a Quaresma, um grupo de homens vestidos com túnicas longas e com um capuz pontiagudo sai pelas ruas em procissão levando tochas, em busca do Cristo, reencenando a prisão de Jesus Cristo no Horto das Oliveiras. São os farricocos e o que fazem é a Procissão do Fogaréu. Originária da Espanha, a Procissão do Fogaréu acontece em diversas partes do Brasil.
“Em 1745, há relatos de um padre espanhol, João Perestelo de Vasconcelos Espíndola, que traz essa tradição da Espanha para a cidade de Goiás, em Goiás, e ali implanta com farricocos, estandarte do Cristo preso, que simbolizam o penitente, aquele que coloca o capuz por vergonha dos seus pecados”, a ACI Digital, Leonardo Barata, vice-presidente da Comissão Nacional de Salvaguarda das Procissões do Fogaréu.
A procissão do fogaréu da cidade de Goiás se consolidou como uma das mais tradicionais do Brasil, talvez a primeira. Entretanto, Leonardo Barata disse que “fazendo pesquisas com outros fogaréus no Brasil”, descobriram “que tem fogaréu mais antigo em Sergipe, em Alagoas, mas com uma tradição um pouco diferente da tradição espanhola, onde só homens vão cantando benditos e as famosas incelências com tochas nas mãos, mas sem capuz, somente batas”.

Agora, a Comissão Nacional de Salvaguarda das Procissões do Fogaréu lançou em suas redes sociais um calendário com as procissões que vão acontecer durante a Quaresma e Semana Santa em várias cidades do Brasil. É a primeira vez que o calendário é divulgado, depois que a comissão foi criada no ano passado, com objetivo de proteger, valorizar e difundir a tradição dos fogaréus no país.
Citando o modelo da procissão do fogaréu da cidade de Goiás, Leonardo disse que “lá tem 50 farricocos e a procissão começa em frente ao Museu de Nossa Senhora da Boa Morte”, com as luzes da cidade apagadas. “Os farricocos saem às ruas ao som de tambores e do clarim em movimento meio que militar, desfilando em busca do Cristo”.
Há uma parada “na igreja do Rosário, que simboliza o local da Última Ceia”. “Lá, os farricocos perguntam para aquele que hospedou Jesus ali por onde o Cristo está. E ele responde que Jesus não está mais lá, que ceou com os discípulos e saiu. E diz a eles que procurem pelas ruas, entre os pobres, entre os famintos, entre as pessoas excluídas da sociedade; faz uma analogia bacana”, contou Leonardo.
A procissão continua e “vai para a igreja de São Francisco de Paula, que pela sua altitude é rememorado o Horto das Oliveiras”. Nessa igreja “aparece um estandarte do Cristo aprisionado e se toca o toque do clarim”, disse Leonardo. Também ali, “o bispo faz o sermão da prisão do Senhor, lembrando todo o sofrimento dele”. Em seguida, a procissão “vai para o seu ponto de partida encerrando”.
“Essa é a procissão mais tradicional que temos e ela é muito simbólica”, disse Leonardo. Mas, ressaltou que em outras cidades acontecem de formas diferentes, como em sua terra natal, Caxias (MA), onde há “um teatro com o batismo do Senhor no adro da catedral, o chamado dos doze apóstolos, o sermão da montanha, a Santa Ceia e aí sai a procissão” até a igreja do Rosário, onde tem um placo representando o Horto das Oliveiras e é “encenada a prisão de Cristo”.
Apesar das diferentes estruturas e formatos, disse o vice-presidente da comissão nacional, “todas as procissões são classificadas como do fogaréu”. “Cada região faz de uma forma. Claro, eles mantêm a essência, que é a prisão do Cristo, toda a tradição com as tochas, muitos deles com farricocos, mas cada um tem suas peculiaridades regionais, o que enriquece ainda mais a tradição do fogaréu no Brasil”, disse.
Uma comissão para salvaguardar a tradição
Leonardo Barata contou que a Comissão Nacional de Salvaguarda das Procissões do Fogaréu nasceu no ano passado com o objetivo de “salvaguardar a procissão do fogaréu, não deixar ela morrer no Brasil, fortificar os realizadores de procissões do fogaréu no país, instruir sobre a importância”.
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A ideia surgiu do primeiro encontro nacional de procissões do fogaréu que aconteceu em setembro do ano passado, em Goiás. Leonardo contou que tinha o desejo de promover este encontro e, em contato com o presidente da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) – que organiza o fogaréu em Goiás – e “outros fazedores de fogaréu no Brasil”, começaram a trabalhar esta ideia, pesquisando na internet procissões no Brasil. “Íamos entrando em contato e criamos um grupo no WhatsApp que hoje tem 98 membros. Fizemos uma reunião e decidimos realizar o encontro, que foi um sucesso, com mais de 50 pessoas”.
Neste encontro perceberam a necessidade de se articularem para manter a tradição. Nasceu, então, a comissão nacional que hoje tem como presidente Guilherme Veiga, que é presidente da OVAT, e o vice-presidente Leonardo Barata.

Leonardo contou que, no próprio encontro do ano passado, já deram alguns passos, como orientação para as procissões do fogaréu, a entrega de cópias de projetos de lei de registro de procissões como patrimônio cultural e material, “para que possam também fazer em suas cidades e estados”. Além disso, já tem agendado o segundo encontro, que será nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, em Caxias (MA).
O mapeamento e a divulgação do calendário nacional das procissões do fogaréu foi outro projeto surgido do primeiro encontro e concretizado agora pela comissão.
Segundo Leonardo, conseguiram mapear até o momento 17 Estados onde há o fogaréu, com 59 procissões registradas. Mas, disse, depois da divulgação do calendário, outras procissões já começaram a entrar em contato pedindo a inclusão no levantamento.
Um instrumento cultural e de evangelização
Para Leonardo Barata, a procissão do fogaréu “é uma procissão cultural, turística e paralitúrgica”. “Quando a gente fala em paraliturgia, a gente fala da importância de termos o bispo ou o padre presente, haja visto que muitas das procissões são realizadas por associações e não pela Igreja, que é quem dá o apoio”, disse.

Para ele, “a procissão do fogaréu tem um papel fundamental na evangelização do nosso povo”. “Principalmente nessa parte da Semana Santa, enquanto as nossas igrejas católicas realizam a Santa Missa do Lava Pés, a Procissão do Senhor Morto, a Liturgia da Paixão do Senhor, o fogaréu vem para completar, ele vem para somar, trazendo à tona o teatro da prisão de nosso Senhor Jesus Cristo”, disse.
“Quando as pessoas vão às ruas participar de uma procissão do fogaréu, elas não estão indo caçar o Cristo… até estão indo procurar o Cristo para prender, mas para prender dentro dos corações, prender dentro do pensamento, da alma e das atitudes”, disse Leonardo. Para ele, “esse é o grande papel fundamental da evangelização da procissão do fogaréu”.
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Segundo o vice-presidente da comissão nacional, a procissão “não atrai somente católicos”, mas pessoas de diferentes religiões. “E todos eles assistem e também são evangelizados através da peça teatral e de toda a simbologia que o fogaréu traz, a essência da Semana Santa”, concluiu.

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